Em um ambiente de competitividade crescente, inovar deixou de ser diferencial para se tornar condição de sobrevivência. Mas como garantir que a inovação aconteça de forma contínua, intencional e gerenciável — e não por acaso?

É exatamente a esse desafio que responde a ABNT NBR ISO 56001:2025 — a primeira norma internacional de requisitos para Sistemas de Gestão da Inovação (SGI). Publicada pela ISO em setembro de 2024 e adotada no Brasil em novembro de 2025, ela representa uma inflexão histórica: a inovação finalmente recebe o mesmo tratamento sistemático que a qualidade (ISO 9001) e o meio ambiente (ISO 14001) já recebem há décadas.

De onde vem a ISO 56001?

A Norma é o resultado de um longo percurso de maturação. A família ISO 56000 começou com a publicação das diretrizes da ISO 56002 (2019) e dos fundamentos conceituais da ISO 56000 (2020), que definiu inovação como “uma entidade nova ou aprimorada que realiza ou redistribui valor”. A ISO 56001 dá o passo definitivo: ela não apenas orienta — ela exige e estrutura.

O Brasil chegou a esse momento com um gap preocupante: a inovação responde por apenas 1,6% do nosso PIB, contra 3,7% na média da OCDE. Nossa densidade de patentes é de 0,8 por 100 mil habitantes, frente a 12,4 na Coreia do Sul. Ocupamos a 52ª posição entre 132 economias no Global Innovation Index 2025. A ABNT NBR ISO 56001:2025 é uma alavanca concreta para mudar esse cenário.

O que a norma objetiva?

O objetivo central é simples e poderoso: aprimorar a capacidade de uma organização de inovar de forma consistente e bem-sucedida. Para isso, o SGI opera em três níveis integrados:

No nível estratégico, a alta direção define a intenção de inovação — porque e para onde a organização quer inovar — alinhando-a ao propósito e às ambições de longo prazo.

No nível tático, objetivos são definidos, riscos e oportunidades são gerenciados, e recursos (pessoas, tempo, finanças, infraestrutura) são alocados de forma planejada.

No nível operacional, as iniciativas ganham vida: identificação de oportunidades, criação e validação de conceitos, desenvolvimento e implementação de soluções. A inovação se integra ao cotidiano — deixa de ser um projeto isolado para se tornar parte do DNA da organização.

Quem se beneficia?

A Norma não é exclusiva das grandes corporações tecnológicas. Ela se aplica a organizações de qualquer porte e setor — empresas privadas, cooperativas, hospitais, universidades, órgãos públicos.

Entre os principais públicos beneficiados: CEOs e gestores de inovação ganham estrutura para construir fontes de crescimento futuro sem comprometer as operações atuais. Auditores internos e de terceira parte passam a conduzir avaliações de alto valor agregado. Investidores e financiadores têm critérios objetivos para avaliar a maturidade inovativa das organizações. Administrações públicas encontram base para formular políticas de apoio à inovação — inclusive como critério de seleção em editais.

Quais os benefícios concretos da adoção?

O livro Gestão da Inovação na Prática, de Frédéric Sauzet, Júlio César Felix e Hélio Gomes de Carvalho — obra de referência para a implementação da Norma no Brasil — sintetiza os benefícios da ISO 56001:

Constrói confiança junto a clientes, conselhos de administração e parceiros estratégicos.

Atrai investimentos ao sinalizar, de forma verificável, que a organização tem capacidade inovadora estruturada — não apenas um discurso de inovação.

Estabelece linguagem comum com parceiros, fornecedores e clientes, essencial em ecossistemas de inovação aberta.

Equilibra o presente e o futuro — a chamada ambidestria organizacional: gerir com eficiência as operações atuais e explorar, simultaneamente, as oportunidades do amanhã.

Antecipa mudanças econômicas, tecnológicas, ambientais e sociais, posicionando a organização proativamente frente as grandes transições contemporâneas — digitalização, descarbonização e inclusão.

Fortalece a reputação da marca, especialmente em setores onde a inovação é atributo de valor percebido pelo mercado e pela sociedade.

Por que é uma integração e não substituição?

Um ponto frequentemente subestimado: a ISO 56001 foi projetada para se integrar aos sistemas de gestão já existentes, não para substituí-los. Organizações com ISO 9001 ativa encontram na 56001 uma extensão natural — os mesmos princípios de melhoria contínua (PDCA), comprometimento da liderança e gestão baseada em evidências são a base de ambas. A diferença está na adição das dimensões específicas da inovação: incerteza, criatividade, exploração e valor multidimensional.

Isso reduz custos de implementação, evita redundâncias e reforça a cultura de gestão sistêmica já existente.

A inovação é um evento? Não, é uma capacidade!

Em um mundo onde a palavra “inovação” é usada em excesso e muitas vezes banalizada, a ISO 56001 oferece o que mais falta: rigor, estrutura e verificabilidade. Como afirmam os autores do livro de referência: “Não basta falar sobre inovação para dizer que se faz a sua gestão.”

Para o Brasil, a chegada da ABNT NBR ISO 56001:2025 é uma oportunidade estratégica. O país tem ecossistemas de inovação vibrantes, talentos excepcionais e desafios sociais que demandam soluções criativas e escaláveis. O que faltava era um sistema reconhecido internacionalmente para organizar, medir e certificar essa capacidade.

Prof. Júlio C. Felix, Esp.

Prof. Hélio Gomes de Carvalho, Dr. Eng.

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